IA e o futuro do trabalho: como potenciar o melhor das pessoas

IA e o futuro do trabalho: como potenciar o melhor das pessoas
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E se a mais-valia da inteligência artificial (IA) generativa não for a eficiência, mas a possibilidade de tornar o trabalho mais humano?

À medida que as ferramentas inteligentes assumem tarefas rotineiras e fornecem informação mais clara, abrem espaço para a criatividade, melhores decisões e um trabalho mais gratificante. Os líderes desempenham um papel central na forma como esta transformação é conduzida, ao ajudarem a aplicar a IA para valorizar a contribuição humana, em vez de a restringir. Quando os líderes concebem e implementam a IA de forma intencional, podem amplificar os aspetos do trabalho que permitem às pessoas prosperar, enquanto criam ambientes onde os colaboradores se envolvem em tarefas com significado e, em última análise, alcançam maior sucesso. Neste sentido, é útil analisar como a IA já está a transformar a estrutura do trabalho.

Como estamos a passar da automação para a amplificação?
As notícias sobre IA e a força de trabalho ignoram com frequência os múltiplos fatores que moldam os mercados de trabalho, incluindo demografia, geografia, setor e definição das funções. Uma perspetiva mais clara resulta da análise de como a IA altera a própria estrutura do trabalho. A IA pode automatizar tarefas, como programação ou resposta a pedidos rotineiros, e pode também aumentar o desempenho humano ao fornecer melhores dados e análises mais precisas.

A IA está a redesenhar os percursos profissionais de baixo para cima. Com a diminuição das populações mais jovens em muitos países industrializados, as organizações não se podem dar ao luxo de perder talento em início de carreira. A prioridade passa então por capacitar estes profissionais para utilizarem a IA a um nível mais avançado, desenvolvendo competências que complementem os sistemas inteligentes, em vez de os duplicarem.

Assim, o futuro do trabalho depende menos da substituição de pessoas por IA e mais da capacidade de se utilizar a IA para ampliar o potencial humano e as suas contribuições. À medida que as tarefas rotineiras desaparecem, os colaboradores podem concentrar-se em trabalho com significado. As ferramentas inteligentes estimulam ideias, apoiam decisões e aceleram a inovação. Ao deslocar o esforço para atividades de maior valor, a IA reforça o sentido de propósito que mantém os colaboradores envolvidos e motivados.

Como liderar com eficácia num mundo impulsionado pela IA?
Estas mudanças estão a redefinir a liderança. No passado, os gestores reagiam aos problemas depois de estes surgirem; hoje, espera-se que os líderes antecipem riscos, identifiquem padrões emergentes e atuem antes de os desafios se agravarem. A IA apoia este novo papel, ao permitir uma visão antecipada. Na empresa americana de software e serviços de recursos humanos ADP, por exemplo, sistemas de IA com agentes autónomos conseguem detetar inconsistências na folha salarial com semanas de antecedência, o que dá aos gestores tempo para agir.

Este é o lado tecnológico. Do lado humano, os líderes devem comunicar de forma clara sobre o papel da IA nas suas organizações e preparar os colaboradores para a utilizarem de modo eficaz. Quatro estratégias podem orientar esse processo:
1. Transparência. Definir expetativas claras sobre o que a IA pode ou não fazer, fundamentar decisões em dados, explicitar o propósito de cada ferramenta e estabelecer um sólido enquadramento de governação.
2. Requalificação (upskilling). À medida que as funções evoluem, dotar os colaboradores de novas competências que lhes permitam conjugar o seu julgamento e a criatividade com ferramentas inteligentes.
3. Reforço. É de ter em mente que a IA existe para fortalecer o trabalho humano. Uma comunicação consistente e um design cuidadoso aumentam a confiança e a adoção. Os líderes devem reforçar que continua a ser essencial o pensamento crítico em cada função.
4. Empatia. No novo mundo da IA, os líderes precisam de demonstrar uma empatia mais profunda, dar tempo e espaço aos seus colaboradores para aprenderem, inspirá-los e servir de exemplo ao mostrar como a IA pode ajudar a amplificar o potencial de cada um.

A mudança cultural subjacente a estas estratégias é tão importante como a tecnologia. Os líderes devem enfatizar que a IA é uma colaboradora que apoia o crescimento e o propósito dos colaboradores, e não um mecanismo de substituição.

Porque é a supervisão humana essencial na IA?
À medida que a IA se integra de forma mais profunda nos sistemas de gestão de pessoas, a necessidade de uma supervisão humana rigorosa aumenta, em vez de diminuir. Os processos de Recursos Humanos (RH) e de processamento salarial situam-se na interseção entre a regulamentação e a confiança dos colaboradores, e mesmo pequenos erros podem ter consequências desproporcionadas. Quando a componente humana não está envolvida de modo consistente no desenvolvimento, no teste e na tomada de decisão da IA, os riscos aumentam rapidamente.

Um erro comum na adoção de IA nas organizações é tratar a sua implementação como um simples lançamento técnico de cima para baixo. As pessoas mais próximas do trabalho conhecem melhor do que ninguém os pontos críticos, as exceções e os riscos de conformidade. O seu contributo é essencial para conceber soluções de IA orientadas para problemas reais. Ou seja, em vez de fornecer ferramentas acabadas para que os colaboradores se adaptem, é mais eficaz um modelo que ajuda as organizações a construir roteiros alinhados com a realidade operacional. Um profissional de RH responsável pela inscrição em benefícios, por exemplo, pode ajudar a definir a forma como agentes de IA navegam por entre regras complexas dos planos.

Esta abordagem colaborativa transforma os utilizadores em co-criadores. A adoção cresce porque os colaboradores confiam no que ajudaram a desenhar, e a inovação expande-se porque quem está mais próximo do trabalho influencia o desenvolvimento. Um especialista em processamento salarial pode identificar um cálculo de horas extraordinárias que representa um risco de conformidade, tornando-o uma prioridade imediata para o desenvolvimento de agentes. E o resultado é um sentimento de pertença. Quando os colaboradores sentem que a IA também lhes pertence, a transformação torna-se mais rápida, eficaz e sustentável.

Como integrar a confiança em todas as fases do desenvolvimento da IA?
À medida que a IA assume um papel mais relevante no local de trabalho, a confiança torna-se crucial. A IA pode fornecer informação importante e atempada para decisões sobre remuneração, horários, benefícios e progressão profissional. Estas decisões têm impacto direto nos meios de subsistência das pessoas e na sua perceção de justiça. Garantir que a informação fornecida pela IA é fiável é fundamental para criar um ambiente em que os colaboradores se sintam valorizados, respeitados e apoiados.

A deteção e a mitigação de enviesamentos devem estar integradas no processo de conceção. Na ADP, por exemplo, uma equipa transversal de governance de IA analisa cada potencial caso de utilização ainda na fase de ideação; um dos aspetos centrais dessa análise é assegurar que o desenvolvimento começa com uma utilização ética e explicável dos dados.

Quando a IA toma uma decisão que afeta a vida profissional de alguém, a decisão deve ser compreensível e rastreável. A salvaguarda técnica, por si só, não é suficiente. A confiança exige consideração durante a fase de desenho das ferramentas, o recurso a grandes volumes de dados para um treino eficaz e uma monitorização contínua após a implementação. O enviesamento pode surgir à medida que os sistemas aprendem, pelo que a vigilância permanente é essencial para garantir que a IA serve de forma justa diferentes grupos.

Como manter as pessoas no centro?
No sentido de construir um futuro do trabalho produtivo e ao mesmo tempo centrado no ser humano, é importante:
Amplificar o potencial, ao utilizar a IA para apoiar os colaboradores que tomam decisões, em vez de os substituir.
Construir confiança, ao assegurar que considerações éticas e de privacidade estão integradas no desenvolvimento das ferramentas de IA.
Investir nas pessoas, ao dotar os colaboradores das competências e dos sistemas necessários para alcançar os melhores resultados.

A verdadeira promessa da IA não reside no que automatiza, mas no que permite às pessoas fazer. Na era das ferramentas inteligentes, as organizações mais bem-sucedidas serão aquelas que constroem a tecnologia em torno das pessoas e garantem que cada inovação reforça a experiência humana no trabalho. 

22-01-2026


Portal da Liderança

Nota: Artigo adaptado de um texto produzido para a Global Agenda/Fórum Económico Mundial por Prasanna Gopalkrishnan, chief product & AI officer na ADP.