Uma das edições do “Finantial Times” da semana passada abordava um assunto muito interessante: a sucessão nas empresas, nomeadamente nas que são controladas por figuras carismáticas (oriundos de clãs familiares).
O trabalho baseava-se na recente agitação no grupo Volkswagen, depois de o chairman do grupo ter retirado a confiança ao CEO da Audi, uma das marcas do grupo (a par da VW, Skoda e Seat). O curioso é que Martin Winterkorn, CEO da Audi, foi escolhido pessoalmente por Ferdinand Piëch para dirigir o ramo de luxo do grupo VW. E até não se tem dado muito mal com isso: a Audi ganha dinheiro, está a crescer em vários mercados e fez um alargamento fantástico da sua linha de produto. E aos poucos aproximou-se da Mercedes e BMW, as outras duas marcas de luxo dos produtores alemães.
Nada disto seria estranho se não fosse a segunda vez que Piëch tem este comportamento. Há alguns anos também “matou” outro CEO que ele próprio tinha escolhido para dirigir outro ramo do grupo VW: Bernd Piechetsrieder, que tinha vindo da BMW para a Seat (gestor com quem falei um par de vezes). Ou seja, há aqui um pormenor estrutural no comportamento do chairman do grupo: ninguém parece ser suficientemente bem sucedido para, um dia, lhe suceder no cargo.
Vamos deixar de lado a questão do peso dos clãs familiares na gestão destas empresas para outro artigo. Fixemo-nos no tema “sucessão”. Porquê? Porque o comportamento de Piëch parece indiciar um problema estrutural na sua Gestão: ele não se quer reformar. Para ele o grupo VW há-de ser sempre dirigido por si.
Não é uma surpresa. Todos os que com ele privaram sabem que Piëch tem uma personalidade fortíssima. E que dificilmente tolera a “dissidência”. Recordo-me de uma entrevista que lhe fiz em finais dos anos 90. Perguntei-lhe porque tinha afastado toda a gestão de topo do grupo VW quando chegou a CEO. A sua resposta, numa voz de aço e em tom cortante veio pronta: “Como é que podia manter todas aquelas pessoas que tinham sido responsáveis por prejuízos no grupo?”.
Durante o seu reinado como CEO, Piëch mudou a empresa tornando-a num gigante entre gigantes: comprou outras marcas (Seat, Skoda), aumentou o line-up da VW, reforçou a imagem de marca de prestígio da Audi e iniciou uma fortíssima expansão no maior mercado do mundo (EUA). Em poucos anos o grupo VW passou a ser um dos maiores players do mundo automóvel.
O problema é que Piëch dava mostras de “secar” tudo à sua volta. Não se lhe conheceram, nesse período, herdeiros aparentes. Até que veio a escolha de Piechetsrieder, saído da BMW em ruptura com a família que controla o seu capital, por causa dos desastrosos resultados da empresa, resultantes da aquisição da Rover. Mas logo que Piëch percebeu que tinha um candidato a sucessor, queimou-o publicamente numa entrevista dada a um jornal alemão. Com Winterkorn, um quadro da própria VW, muito estimado em todo o grupo, a história parecia ser diferente. Até há duas semanas…
Depois do que se passou com o “assassinato” de Winterkorn, é caso para dizer que o grupo tem um problema. E que os accionistas deviam estar preocupados. Por duas razões: até hoje Piëch tem acertado nas escolhas que fez (com um ou outro erro). Mas de um momento para o outro, pode cometer um erro colossal que ponha em causa o futuro da empresa (olhe-se para os fabricantes de automóveis americanos, por exemplo…).
A segunda razão tem a ver com a inexistência de uma política, de um plano de sucessão. Se Piëch sair rapidamente (até por um problema de saúde), o grupo não tem sucessor interno. E trazer alguém de fora, além dos problemas culturais, implica uma longa adaptação até conhecer os meandros da empresa. Coisa que na actual conjuntura, onde os ciclos de produto no sector automóvel aceleraram drasticamente, pode perda de quota de mercado.
Moral da história: começa a ficar claro que o grupo VW tem de por Piëch a andar. O futuro das empresas quando o CEO, ou chairman, com o seu perfil desaparece, costuma ser sombrio… E o peso que a VW tem hoje no mundo não permite correr esse risco.
Camilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Comentador de assuntos económicos e financeiros em vários canais de televisão generalista, é também docente universitário. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.