O que Silicon Valley me ensinou – 3.º dia

O que Silicon Valley me ensinou – 3.º dia

O terceiro artigo sobre a minha experiência em Silicon Valley incide em temas como elevator pitch, Intel, Google e Carbon 3D.

Gabriel Giehl Martins

O terceiro dia começou na sala de reuniões do hotel, com uma apresentação sobre como fazer um elevator pitch. O processo é simples mas não é fácil, dado que exige muitos ensaios e rondas de melhoria. Além da pompa e circunstância em torno dos pitches das start-ups, todos deveriam dominar a arte de vender de modo eficaz uma ideia ou até si próprios num curto espaço de tempo. A estrutura apresentada é composta por três etapas principais: a captura (catch), o núcleo (core) e a conclusão (closing).

A parte da captura é a mais importante, porque se não for capaz de se ligar e deixar as pessoas interessadas em ouvir, não importa o que vem a seguir. Os primeiros 30 segundos marcam a eficácia do pitch e deverão atrair a atenção das pessoas com uma única frase.

O núcleo deve deixar claro os pontos fortes da sua proposta de valor, mencionando sempre as necessidades do mercado, o seu compromisso em cumprir, os benefícios ou valores que aporta e como se diferencia da concorrência.

Por fim, mas não menos importante, a conclusão. A regra de ouro é testar o interesse da audiência e não ter medo de pedir o que quer (dinheiro, reunião de follow-up, fazer uma oferta de emprego, pedir um emprego, etc.). Mantenha o contacto visual, não baixe o tom de voz e mostre entusiasmo. Este vídeo é um bom exemplo, em que um jovem ganhou uma competição de elevator pitch.

Sessão de pitch concluída. Seguimos para o autocarro para enfrentar de novo duas horas de trânsito até Mountain View.

A primeira paragem do dia foi uma visita ao museu da Intel, no piso no térreo dos seus escritórios. Foi ótimo para recordar a história de uma grande empresa que criou disrupção no mundo da ciência da computação. Também aprendemos como os chips da Intel são feitos e a sua relação direta com o motivo pelo qual a área ficou conhecida como “Silicon Valley”, já que a principal matéria prima dos chips é justamente o silício.
Por fim, há uma frase muito interessante em destaque no museu da Intel que vale a pena partilhar, e que é uma das mais famosas de Robert Noyce, um dos fundadores da companhia (ver imagem em baixo). Estas palavras não podiam ser mais adequadas ao atuais ecossistema e realidade de Silicon Valley: “Não se sinta sobrecarregado pela história. Vá e faça algo maravilhoso”.

RobertNoyce Intel

Já no Googleplex, fomos recebidos por Jason Amarante, um dos program managers da Google, que está a trabalhar no produto de voz concorrente do Amazon Echo. Para Jason, a vantagem competitiva da Google neste mercado é a quantidade de dados que “controla”. Estivemos apenas no exterior do complexo, dado que não tínhamos autorização para entrar nos edifícios. A propósito, para entrar no espaço do Facebook temos de ser funcionários ou estar com um anfitrião. Na Google, qualquer pessoa pode passear e visitar as instalações externas. Sem surpresa, a Google tem comodidades à disposição dos trabalhadores muito semelhantes às do Facebook. Neste caso, foi um pouco estranho ver quatro funcionários a jogar vólei de praia a meio do dia e durante o horário de trabalho. 

Também visitámos o local onde a Google mantém o símbolo de todas as versões do Android, cada uma delas relacionada com um doce e que seguem cronologicamente a ordem alfabética: Cupcake, Donut, Eclair, Froyo, Gingerbread, Honeycomb, Ice Cream Sandwich, Jelly Bean, KitKat, Lollipop, Marshmallow, e o último, Oreo.

Como ex-gestor de projetos, fiquei curioso em relação ao software que usam para controlar projetos e fazer pontos de situação. Jason Amarante disse que eles usam tudo da Google, ou seja, tudo no Google Drive, nada de Microsoft Office nos desktops, e Hangout em vez de WhatsApp na comunicação interna.

Próxima paragem: o mundo fintech. Chegámos à Credit Sesame, uma das start-ups de maior sucesso nos EUA, e fomos recebidos pelo CIO, Pejman Makhfi. Este explicou-nos o modelo de negócio da empresa e como conseguiram obter 77 milhões de dólares em cinco rondas de angariação de fundos. Fiquei maravilhado com a apresentação em PowerPoint, a mesma que usam para dar a conhecer a empresa aos potenciais investidores: impressionantemente simples! A sério, imagine um slide em branco (sem fundo/background), com o título sem qualquer formato além do bold e um diagrama com setas simples a ligar dados. Os slides eram todos assim! Ou seja, se pensa que precisa de design e de uns slides bonitos para vender a sua ideia ou projeto, pode estar enganado. Eu sigo a teoria de que o nível de embelezamento de uma apresentação está no ponto oposto do nível de conteúdo. Mas não digo que bons slides que facilitam a comunicação não sejam importantes.

A paragem seguinte foi a Carbon, de impressão 3D. Pensei que ia ver uma empresa que imprime coisas utilizando a tecnologia 3D. Mas durante a visita percebi que o negócio deles consiste em fabricar impressoras 3D e produzir resinas específicas para usar como fornecimento. Foi como ir à Xerox quando começou a produzir fotocopiadoras e a vender tinteiros. Aconselho a visualização da TED Talk proferida pelo fundador, Joseph DeSimone, que explica a tecnologia de ponta de impressão 3D. Têm mais de 100 patentes e uma parceria com a Adidas para imprimir as solas do modelo de ténis Futurecraft 4D (ver foto), em que vão produzir 500 mil este ano e esperam imprimir 5 milhões por ano até 2020.

SolasAdidas

O dia terminou com um evento incrível organizado pela Reed Smith, um dos maiores escritórios de advocacia do mundo. Boa comida e pessoas incríveis para nos conectarmos com. O evento tinha como objetivo evidenciar e fortalecer o canal de comunicação e a troca de experiências entre Portugal e Silicon Valley.

28-09-2018


Portal da Liderança


Gabriel Martins Small

Gabriel Giehl Martins é senior manager na brasileira Rede D’Or São Luiz (a maior empresa de gestão hospitalar da América Latina). Formado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal Fluminense (Rio de Janeiro, Brasil), tem mais de dez anos de experiência em projectos de estratégia e gestão com atuação em segmentos como o da saúde, logística, educação, serviços, tecnologia ou oil & gas.

Eleito Best Student Leader em 2017 após ter concluído o MBA pelo The Lisbon MBA (Universidade Nova e Universidade Católica em Lisboa, e MIT Sloan nos EUA), encontra-se na fase final da sua tese de mestrado em Business (também pelo The Lisbon MBA).

Apaixonado por conhecer novas culturas através de viagens, da culinária e da leitura, também se diverte a assistir ou a jogar um bom futebol.