Jorge Sousa Brito: África continua a estar numa posição desfavorecida

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Jorge Sousa Brito: África continua a estar numa posição desfavorecida

O Portal da Liderança esteve com Jorge Sousa Brito, Reitor da Universidade Jean Piaget de Cabo Verde. Segundo este, "os líderes tendem a falhar ao premiar os bajuladores em detrimento dos mais eficientes e que melhor se dedicam", sendo que "terão de saber como transformar vantagens comparativas em vantagens competitivas". 

Portal da Liderança (PL):  Foram vários os cargos de liderança que já ocupou, sendo atualmente Reitor do PIAGET. Como se define enquanto líder?

PL: Para si, o que é o fundamental da liderança? 

Jorge Sousa Brito (JSB): Coerência, integridade e empenho.

PL: Qual foi a situação que o fez aprender mais em termos de liderança e o que aprendeu? 

JSB: Aquando da aceitação do convite que me foi endereçado para, em 1991, dirigir a Escola de Formação de Professores do Ensino Secundário de Cabo Verde, foi-me dada luz verde para, se tal fosse necessário, afastar todos os docentes que achasse perniciosos e que constituíssem ameaças à estabilidade institucional. Estávamos nos primeiros meses da segunda república e entendi muito bem que havia razões de cariz político atrás dessa “luz verde”, uma vez que a grande maioria dos docentes era fortemente conectada com o regime anterior. 

Se por um lado reconhecia ser meu dever mudar o deplorável estado de coisas que reinavam nessa escola, por outro lado não era sensato fazer rolar cabeças, sobretudo na atmosfera de tensão política patente que etiquetaria imediatamente o ato de perseguição política, por mais académica que fosse a argumentação subjacente.

Reuni-me com os docentes, e comecei por me apresentar e por assegurar que contava com todos os presentes para atingir o propósito de fazer elevar a classificação da escola de estabelecimento de ensino pós-secundário profissionalizante para estabelecimento de Ensino Superior. Pedi que cada um se exprimisse livremente sobre o assunto e sobre a situação da escola. 

Nos meses e anos subsequentes aprendi a otimizar o contributo de cada uma das sensibilidades, no sentido do propósito em vista, e a apaziguar os ânimos dos que me tinham convidado para assumir esse cargo. Tal não foi fácil e pude aprender a gerir conflitos e a congregar os esforços em torno do citado objetivo (tanto mais que com a obtenção desse objetivo, o status académico e remuneratório dos docentes mudaria significativamente).

PL: Como contribui o PIAGET para uma melhor liderança em Cabo Verde?

PL: Foram considerados a melhor Universidade a nível dos PALOP. Em termos de liderança, o que está na base deste reconhecimento?

PL: Quais os principais desafios que se colocam aos líderes africanos?

PL: Quais são os três principais desafios que confrontarão os líderes empresariais nos próximos 10 anos?

JSB: 1) Ultrapassar os constrangimentos colocados pela renitente crise financeira internacional e ter presente a problemática do impacto ambiental e da eficiência energética. 2) Numa era da mobilidade, tornar a empresa atrativa para os melhores quadros. 3) Saber como transformar vantagens comparativas em vantagens competitivas.

PL: Quais são as três qualidades mais importantes para um líder empresarial nos próximos 10 anos? 

JSB: 1) Ter visão estratégica (saber retificar métodos e metodologias em função das mudanças do ambiente externo ou dos contextos). 2) Saber partilhar informação (as novas ideias surgem com a circulação da informação). 3) Saber gerir a mudança (as decisões devidas ao exercício da visão estratégica, provocam resistência a muitos colaboradores e integrantes da empresa).

PL: Onde mais tendem a falhar os líderes empresariais? 

JSB: 1) Na motivação dos seus trabalhadores em torno dos propósitos da empresa. Isto muitas vezes é devido a estímulos baseados em critérios pouco claros e injustos (premiar os bajuladores em detrimento dos mais eficientes e que melhor se dedicam). 2) No equacionamento dos objetivos (objetivos altamente vulneráveis às mudanças do ambiente externo). 3) No fraco ou nulo investimento em matérias de segurança e de manutenção (zelar de forma generosa e solidária pela comunidade onde a empresa se insere, é investir na segurança).

PL: Um dia o que é que o mundo vai dizer de si 

JSB: Devido ao meu estilo de liderança, catalisador e não carismático, o mundo de mim nada dirá, pois as obras e empreendimentos onde eventualmente terei exercido um poder catalítico, brilharão por si próprias e pelo coletivo anónimo que os sustentou. Julgo, no entanto, que os meus descendentes lembrar-se-ão de mim e de mim ouvirão falar, pela minha maneira de ser (virtudes e defeitos) e pelos princípios de integridade e honra que pugno firmemente. 

 


JorgeSBrito1Jorge Sousa Brito é doutorado pela Universidade do Arizona (EUA), pós-mestrado pela ORSTOM (França), mestre pela Universidade de Paris VII (França) e licenciado pela Universidade de Nice (França). Desde 2006 que é Reitor da Universidade Jean Piaget de Cabo Verde, tendo sido vice-Reitor da mesma entre 2001 e 2006. Foi Diretor Geral do Ensino Superior e Ciência de Cabo Verde entre 1998 e 2001 e Presidente do Instituto Superior de Educação (Praia, Cabo Verde) entre 1995 e 1998.