Anand Mahindra: Na Índia tornamo-nos melhores a fazer coisas que o Ocidente já fazia

Watch the video

Anand Mahindra: Na Índia tornamo-nos melhores a fazer coisas que o Ocidente já fazia

Anand Mahindra, presidente e diretor geral do Mahindra Group, é responsável por ter ultrapassado a John Deere e tornar a organização na maior empresa de construção de tratores do mundo. Em entrevista ao Financial Times, fala sobre a inovação empresarial na Índia. Segundo este, "a economia indiana terá sempre o rótulo de nunca estar a viver no seu máximo potencial".

Financial Times (FT): Tem criticado as abordagens indianas à inovação, referindo que as empresas indianas têm que melhorar o seu jogo, deixar de depender dos conceitos frugais de inovação e começar a enfrentar os melhores do mundo. Pode explicar o que quer dizer com isso?

Anand Mahindra (AM): Aquilo que tenho criticado é parecer que estamos presos a um certo modelo, que era muito apropriado numa particular fase de desenvolvimento, chamada de “joghar”, uma frase local que significa contentar-se ou ficar-se pelos recursos que se tem. E isso parecia bom quando tínhamos que trabalhar com recursos extremamente insuficientes e conseguir juntar tudo para criar maquinaria e assim sobreviver. Mas à medida que a Índia tem vindo a crescer e o consumidor indiano a exigir cada vez mais sofisticação dos produtos e serviços que compra, a minha única reprovação é acreditar que temos que ir para além do “joghar” e mudar para um conceito de “dar mais por menos”. Penso ainda que a Índia não deve deixar de fornecer tecnologias de alta qualidade, mas aos mesmos níveis de custos que os nossos concorrentes globais praticam. O nosso ponto de diferença será fazer mais por menos. Nessa medida, a engenharia frugal não é uma frase que acarinho. Mas se engenharia frugal significar dar mais por menos, então não tenho argumentos contra.

FT: Pensa que as empresas indianas conseguem competir à escala mundial da mesma forma como você conseguiu tornar-se no maior player mundial de tratores? Podem os outros seguir esse mesmo caminho? Será uma ambição realista?

Anand--MahindraAM: Espero que sim. Gostava de pensar que sim porque nós não pensamos que somos super-homens ou super-mulheres e que temos caraterísticas especiais que as outras empresas não têm. Penso realmente que conseguem. Tem tudo a ver com a vontade. Tem tudo a ver com o desejo de ser bem-sucedido e com libertar os talentos que estiveram retidos durante muitos anos sobre o controlo da economia indiana. Podem manifestam-se de formas diferentes mas espero que todos tenham um lugar no palco dos vencedores.

FT: Sobre as empresas do Ocidente, será que as empresas da Índia e fora desta, como a China e outros mercados emergentes, devem olhar para esses países e ver o que podem aprender sobre como as empresas estão a inovar nessas economias?

AM: Tenho um forte ceticismo sobre as teorias que dizem que existe um “je ne sais quoi” sobre a inovação indiana, que tem de ser emulada e com a qual se pode aprender. Ou da forma indiana que tem sido um tópico muito quente hoje em dia. Existe algum sistema de gestão indiano ou alguma maneira indiana de inovar? Não acredito muito nisso. Penso que existem formas de estar comprometido em fazer mais por menos, que irão permitir fazê-lo e, francamente, para qualquer empresa no mundo. Penso que as empresas indianas são melhores a fazê-lo e estão mais habituadas a fazê-lo, mas isso não significa que é algo que mais ninguém consegue fazer. E vou ser muito honesto. O que era a inovação de Silicon Valley? Era inovação de garagem, era a inovação da via das restrições. Se for a Silicon Valley e perguntar a algum presidente ou vice-presidente em que tipo de empresas quer investir, dir-lhe-ão que procuram empresas que não usaram muitos recursos no problema, sejam esses recursos pessoas ou financeiros. Estes sentem que a inovação liderada pelas restrições é o que os leva ao sucesso. Portanto, se calhar apenas nos tornámos melhores a fazer certas coisas que o Ocidente já estava a fazer e se calhar o Ocidente apenas se esqueceu de como o fazer.

FT: Falando de restrições. Uma das restrições que as empresas indianas estão a enfrentar é a macroeconomia e um ambiente político em que o governo é acusado de estar paralisado e onde o crescimento está em declínio. O que acha que tem que acontecer para quebrar este ciclo e levar a Índia novamente ao crescimento?

Anand---MahindraAM: A economia indiana terá sempre o rótulo de nunca estar a viver no seu máximo potencial, porque existem inúmeras formas em que um cidadão indiano, qualquer cidadão indiano falador, o que somos todos nacionalmente, dirá o que o governo pode fazer melhor ou o que aconteceria se certas regras fossem colocadas ou retiradas por completo. E isso não é mentira. Haverá sempre uma melancolia sobre os homens de negócios indianos que os leva a dizer “Se não houvesse isto, seríamos duas vezes mais do que somos agora”. Dito isto, o facto é que a Índia continua a mostrar uma taxa de crescimento saudável apesar de todos os problemas. A taxa de crescimento incorporada que temos é saudável e é uma das mais atrativas para os investidores em todo o mundo. Penso que é atrativa para muitas pessoas. Encontrará sempre indianos que dizem “ Se isto acontecesse...”, “Se tivéssemos melhores governantes...”, “Se tivéssemos um sistema político mais coerente estaríamos a 9%”. Isso é verdade e talvez consigamos lá chegar eventualmente. O que eu vejo que está a acontecer é que todos os anos há um sistema sem ações, e estou a dizer isto num sentido positivo, de um sistema sem ações viradas para o crescimento, que avança para um nível mais elevado. Talvez por causa das aspirações dos consumidores ou da impaciência destes e dos cidadãos de hoje, mas penso que a Índia está a aumentar gradualmente os seus níveis de crescimento, o que irá surpreender a todos.

FT: Vamos concluir a entrevista com o nosso segmento “curto ou longo”. Deixe-me dizer umas pequenas palavras e dê a sua resposta entre curto ou longo. 

É conhecido como um fanático do Twitter. As pessoas de negócios estão no Twitter?

AM: Longo

FT: A rupia?

AM: Longo

FT: O Euro?

AM: Curto

FT: Carros elétricos?

AM: Longo

FT: Carros a combustíveis fósseis?

AM: Curto

 


AnandMahindraAnand Mahindra é Presidente do Conselho de Administração e Diretor Geral da Mahindra & Mahindra, empresa fundada pelo seu avô em Ludhiana, Punjab, Índia. Anad estudou no The Lawrence School Lovedale e no Harvard College, Cambridge, Massachusetts, tendo um MBA pela Harvard Business School, Boston, Massachusetts. Segundo a Forbes em 2011, é o 68º na lista de milionários da Índia.