António Ferreira: Com o índice do S. João, o custo da saúde reduziria 500 milhões

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António Ferreira: Com o índice do S. João, o custo da saúde reduziria 500 milhões

António Ferreira, Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de São João e vencedor do Best Leader Awards* 2013, em entrevista ao Portal da Liderança confessa que embora seja imenso, "temos uma legislação que nos impede de ter uma abordagem séria em relação ao absentismo fraudulento".

Portal da Liderança (PL): Quais as alavancas da sua liderança que lhe permitiram sustentar o sucesso do Centro Hospitalar de São João?

PL: Porque é que não conseguimos exportar o modelo de excelência do Hospital de S. João para os outros hospitais públicos? 

António Ferreira (AF): A resposta mais direta a esta questão é porque os outros não querem. Se utilizasse o indicador de eficiência do São João, ou seja, o custo unitário por doente padronizado, e o aplicasse a todos os hospitais portugueses, a despesa com a saúde no país reduziria acima de 500 milhões de euros. Basta querer.

PL: Na sua opinião, quais as caraterísticas fundamentais de um líder?

PL: Referiu que no Hospital de S. João, no conjunto de 6000 colaboradores, faltam em média 10% por dia. Como é que justifica isto?  

AF: Deve-se a dois motivos. O primeiro é porque o Hospital de S. João é o único hospital português em que se registam efetivamente as presenças, o que é muito importante. Ou seja, todos os grupos profissionais e o conselho de administração quando chegam fazem o seu registo biométrico de entrada e o mesmo quando saem. Isto permite-nos ter uma ideia da maior parte do absentismo. Isto porque há outros que vão fazer o registo, depois vão trabalhar, voltam a vir fazer o registo de saída mas só lá vão estacionar o carro. Se todos os hospitais fizessem isto, a taxa de absentismo aumentaria em termos globais. Estes 10% de absentismo do Hospital de S. João incluem tudo, como férias, comissões gratuitas de serviço e apoio na parentalidade, entre outros, bem como o absentismo fraudulento, onde se incluem as baixas fraudelentas, que é imenso e penso que o seja em todo o lado. E temos de viver com isto porque temos uma legislação que nos impede de ter uma abordagem séria em relação a isso.

PL: Acha que a reforma em curso no Estado vai permitir ultrapassar problemas como o absentismo fraudulento? 

AF: Qual reforma?

PL: Foi o vencedor do Best Leader Awards 2013 na categoria de Líder na Administração Pública. Qual a importância que este prémio teve para si?

PL: Qual é o papel da liderança no desenvolvimento da inovação na área da saúde?

AF: Tento fixar-me no core business, que vem antes de tudo, mas há áreas que são extremamente atrativas para as instituições públicas, como o Hospital de S. João. Recorro a um exemplo nosso. Estamos a desenvolver um sistema integrado de abordagem de todo o processo hospitalar que é absolutamente único em Portugal e na Europa. Este está na sua segunda fase, em que utilizaremos inteligência artificial na assistência à decisão, quer de gestão quer clínica. Estamos à procura de um parceiro para podermos comercializar este sistema em termos nacionais e internacionais. Esta interligação entre o know-how técnico do core business que é tratado antes com o desenvolvimento de equipas vindas de outras áreas, gera a capacidade de integrar tudo isto de forma a termos de facto uma abordagem integradora de todo o processo, o que é absolutamente inovador e uma enorme oportunidade de ajudarmos a garantir a sustentabilidade das nossas próprias instituições públicas.

*O Best Leader Awards é uma iniciativa promovida pela Leadership Business Consulting, que visa distinguir anualmente as personalidades que se destacaram como “Líderes” em vários domínios. O Best Leader Awards é uma TradeMark registada internacionalmente.

 


Antonio-Ferreira-Hospital-Sao-Joao-PortoAntónio Lobo Ferreira é licenciado e doutorado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Especialista em Medicina Interna pela Ordem dos Médicos, combina a função de assistente graduado de medicina interna do Hospital de S. João com a de professor auxiliar da Faculdade de Medicina do Porto. É ainda membro do grupo de Programa do Medicamento Hospitalar do Gabinete do Secretário de Estado da Saúde e investigador da Unidade de Investigação e Desenvolvimento Cardiovascular do Porto.