Cristina Fontes: Fui confrontada com desafios que aceitei com alguma ousadia como ao nível do PAICV

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Cristina Fontes: Fui confrontada com desafios que aceitei com alguma ousadia como ao nível do PAICV

Cristina Fontes, Ministra-adjunta e da Saúde de Cabo Verde, refere que "é mais difícil ser-se líder agora em Cabo Verde", uma vez que "liderar gente informada é um desafio maior". Esta entende que "África precisa de mais boa governação e de uma liderança que sirva as pessoas", bem como de "manter a credibilidade".


Terei sido a primeira mulher na comissão política, fui Ministra da Defesa, tive responsabilidades que outras mulheres, antes de mim, não teriam tido e isso deu-me uma grande vantagem.



Portal da Liderança (PL):  Como se define enquanto líder?

PL: Para si, o que é o fundamental da liderança? 

Cristina Fontes (CF): Diria que o fundamental da liderança é a coerência. Um líder tem de ser reconhecido como alguém que junta o que faz ao que diz. Essa ideia de que se podem fazer promessas, enganar as pessoas ou ludibriá-las, já foi chão que deu uva e se funcionou, cada vez funciona menos. 
A afetividade é também algo de muito importante para se ter a possibilidade de explicar as coisas às pessoas e se ser o mais frontal possível. Tentar argumentar, explicar é um dos caminhos que ajuda o líder a manter a sua credibilidade, a sua coerência. Falando frontalmente, olhos nos olhos, dizendo quando não pode e porque não pode e mantendo-se fiel às coisas que projeta e promete fazer.

Muito trabalho também é algo muito importante para um líder bem-sucedido.

PL: Quais os principais desafios de liderança que se lhe deparam no exercício das suas funções?

PL: Qual foi a situação que a fez aprender mais em termos de liderança e o que aprendeu? 

CF: Algo que me terá ajudado foi a ideia de que existe um corredor estreito entre ouvir as pessoas e decidir. De um líder esperam-se decisões, não de uma forma ligeira e baseada apenas nas opiniões de outros, mas com convicções e com responsabilidade. As coisas podem até correr mal mas ponderou-se, deu-se o tempo necessário (nem mais nem menos) e decidiu-se frontalmente, com firmeza. 

Por exemplo, o aumento ou a reforma do IVA, ou reformas que à partida não são evidentes, mas se estamos convictos, lemos o dossier e entendemos que é esse o caminho, deveremos argumentar, procurar explicar e avançar. As decisões certas, não serão sempre as mais populares nem as melhor compreendidas pelo círculo que pressiona noutra direção, mas um bom líder deve poder estar convicto das suas decisões. Naturalmente tomá-las-á com as informações que tem no momento, mas deve passar esta firmeza nas suas decisões.

PL: A sua carreira apresenta, entre outras, experiência como consultora em alguns países africanos. Como pode a liderança nos países africanos tornar-se mais eficaz?

PL: Quais os ganhos que se obtêm com um cada vez maior equilíbrio de géneros no exercício da liderança?

PL: Quais os desafios de liderança que se deparam a Cabo Verde nos próximos 10 anos?

PL: Onde mais tendem a falhar os líderes políticos?

CF: Diria que na coerência. Penso que na tentação de desligar-se dos compromissos iniciais, ou eventualmente de não se explicar o suficiente, uma vez que às vezes é necessário desligar-se porque as coisas mudam, a vida é dinâmica. É preciso dialogar sempre, explicar, para que a ideia da coerência e da renovação da legitimidade perante as pessoas com quem e para quem trabalha seja clara.

Diria que a coerência, a credibilidade e a capacidade de diálogo com os outros são fundamentais.

PL: Quais são os três principais desafios que confrontarão os líderes políticos nos próximos 10 anos? 

CF: Em situações difíceis é necessário estar-se muito tranquilo. Às vezes as situações não têm soluções imediatas, é necessário um tempo para a maturação para que as coisas se decantem e apareçam as soluções. Nestes anos de governação aprendi a combater o stress e a gerir desafios. Muitas vezes é necessário dar um tempo para se encontrarem as soluções, sem cair no adiamento e procrastinação. É preciso decidir a tempo mas com ponderação.
O segundo desafio seria o de se manter fiel aos compromissos iniciais, ou pelo menos saber comunicar e dialogar quando essas prioridades mudam e evoluem com o passar do tempo.

Finalmente, outro grande desafio seria o da afetividade. As pessoas até podem admitir que não se têm as soluções todas mas querem ser ouvidas, querem comunicar, e sendo esta uma sociedade de conhecimento e de proximidade, muitas vezes procuram os líderes também por razões de afetividade.

PL: Quais são as três qualidades mais importantes para um líder político nos próximos 10 anos?

CF: A coerência, a credibilidade e a capacidade de acompanhar uma sociedade policêntrica, uma sociedade mais complexa que, felizmente, possui gente mais informada que também nos pode ajudar a construir as decisões, na busca de soluções para o país.
Deverá ser, sem dúvida, um líder integrador, inclusivo.

PL: Um dia o que é que o mundo vai dizer de si?

CF: Talvez dirão que eu tenha sido uma mulher que assumiu certos desafios. Fui confrontada com desafios que não tive problemas em aceitar e talvez com alguma ousadia, nomeadamente a nível do PAICV, o meu partido político. Terei sido a primeira mulher na comissão política, fui Ministra da Defesa, tive responsabilidades que outras mulheres, antes de mim, não teriam tido e isso deu-me uma grande vantagem porque aprendi imenso. Considero ter sido um grande privilegio ter podido assumir esses desafios.
O que eu espero que digam de mim, é que tive firmeza no que fiz, que me entreguei com alma, que é algo que gosto de por naquilo que faço, e espero também que me venham a considerar coerente naquilo que projetei e no serviço que prestei. Espero que digam que eu fui responsável nos vários desafios que tive.

 


Cristina-Fontes-Cabo-VerdeMaria Cristina Lopes Almeida Fontes Lima é licenciada em Direito (Portugal) e Mestre em Administração Pública (USA). Desempenhou as seguintes funções: Ministra da Reforma do Estado e da Defesa nacional; Ministra da Presidência do Conselho de Ministros, da Reforma do Estado e da Defesa Nacional; Ministra da Justiça e Adjunta do Primeiro Ministro; Ministra da Justiça e Administração Interna; Consultora em Assuntos Jurídicos e Gestão em Lomé (Togo); Advogada e Consultora Jurídica na Praia; Deputada da Nação; Diretora do Gabinete de Estudos e Planeamento do MNE; Assessora do Ministro dos Negócios Estrangeiros; Chefe da Divisão de Assuntos Jurídicos e Tratados do MNE.