A Europa e o Desafio do Mediterrâneo – Carlos Oliveira

A Europa e o Desafio do Mediterrâneo – Carlos Oliveira

É perante desafios e dilemas concretos que nos definimos verdadeiramente, como indivíduos e como sociedade. As imagens recorrentes de homens, mulheres, crianças, bebés, famílias inteiras de africanos, árabes e alguns asiáticos a arriscarem a vida e a morrerem afogadas a atravessar o Mediterrâneo para uma vida melhor na Europa, colocam um desafio à Europa e, concretamente, aos líderes europeus que têm de decidir sobre uma resposta eficaz.


Um Momento Definidor

É um momento definidor para os líderes europeus, cujas respostas ficarão na memória histórica. No entanto, o sistema de governo europeu não é o contexto ideal para endereçar este tipo de desafios, de resposta rápida, de elevada complexidade e com uma forte componente moral. As decisões pelo coletivo, e em muito casos obrigatoriamente por consenso, complicam o processo de decisão, reduzem a capacidade de ação corajosa e audaz e diluem a responsabilidade.

Segundo as notícias, só em 2014, mais de 3.500 pessoas morreram afogadas a tentar chegar ilegalmente à Europa pelo Mediterrâneo. Para além disso, há a questão da dignidade humana dos que sobrevivem. É evidente que a Europa tem de fazer mais. Por razões humanitárias, políticas, económicas e de segurança. A resposta anunciada pelos líderes europeus pode ser insuficiente.

Porque a Europa Tem de Fazer Mais

Comecemos pelas razões humanitárias. Uma Europa que se posiciona frequentemente, e por vezes arrogantemente, como o farol atual da civilização, tem de colocar como primeiro critério de ação, salvar vidas e defender a dignidade humana. Os insuficientes meios destinados a patrulhar o Mediterrâneo, salvar e acolher pessoas, têm de ser aumentados. É preciso uma resposta de emergência humanitária. Aparentemente vão ser triplicados. Segundo se lê, esse orçamento reforçado de toda a Europa é mesmo assim menor do que a Itália sozinha destina a este problema. A aparente impunidade ou incapacidade de identificar e parar os traficantes de pessoas desesperadas, é um sinal dos poucos meios disponibilizados para este efeito. Aparentemente também vai ser reforçado. Veremos se é suficiente.

Em termos políticos, uma Europa, que é talvez o continente que mais emigrantes gerou para outros continentes durante os períodos mais longos da história, tem a obrigação de reciprocar. É verdade que a capacidade de absorção e integração social e económica é limitada e que muitos países europeus sentem já uma grande pressão migratória em termos sociais e económicos. Segundo as estatísticas do Migration Policy Institute, depois da América do Norte, e excluindo o fator de expatriados no Médio Oriente Árabe, a Europa é o espaço sócio económico que mais emigrantes recebe e acolhe desde há várias décadas. 

 

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No entanto, tendo em atenção o desnível de desenvolvimento socioeconómico, a Europa deve continuar a partilhar com os seus vizinhos. Não é fácil para uma sociedade cada vez mais individualista e consumista. Durante a recente crise económica, a população mais velha não quis baixar as suas pensões em prol da qualidade do futuro da sua própria geração mais jovem.

Em termos económicos, a Europa precisa de mais gente, de jovens para equilibrar a sua pirâmide demográfica e assegurar mão-de-obra para várias atividades económicas. A diversidade cultural traz também maior criatividade e inovação social. Interessa também à Europa investir muito mais na cooperação e desenvolvimento dos vizinhos do Mediterrâneo, especialmente no Norte de África, para reduzir a pressão migratória e ter parceiros comerciais bem mais fortes.

Em termos de segurança, é do interesse da Europa reduzir os índices de pobreza, que tornam as pessoas mais vulneráveis à criminalidade comum e a radicalismos políticos e de expressão criminosa. A Europa tem responsabilidades na Líbia, principal entreposto de tráfego humano no Mediterrânio. Ajudou a destruir o sistema político, mas não conseguiu ajudar a criar um sistema político alternativo, deixando o país como presa fácil para todo o tipo de problemas.

É pois de esperar que os líderes europeus façam muito mais do que têm feito até agora.

 


CMO-PLCarlos Miguel Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em 8 países, África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, Estados Unidos da América, Espanha, Moçambique e Portugal. Assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informações aqui.