O que vai influenciar o resultado das eleições em Portugal – Carlos Oliveira

O que vai influenciar o resultado das eleições em Portugal – Carlos Oliveira

O ano de 2015 está a ser fortemente marcado, já desde o seu início, pela expetativa da realização de eleições legislativas em Setembro ou Outubro. O cansaço resultante de um longo período de austeridade cria bastante ansiedade sobre o futuro.

Evidentemente, muitos fatores irão determinar os resultados das eleições. Desde logo a política, o discurso e o comportamento das várias forças políticas, assim como: o estado da economia nacional; a evolução da economia e da geopolítica mundial; incidentes internos e externos esperados, como o resultado das eleições gregas e noutros países europeus; e incidentes inesperados. (1)

As Três Dimensões Fundamentais

Desconhecendo a dinâmica que o ano nos trará, creio que a resposta a três questões serão determinantes no plano interno para os resultados das eleições: i) A austeridade foi uma ressaca inevitável ou uma opção ideológica? ii) O processo foi bem ou mal conduzido? iii) O partido do poder ficou identificado com este período, ou consegue corporizar uma nova fase de ambição e de crescimento, mas segura?

A primeira questão é a base de todas as outras. “As medidas de austeridade e as suas nefastas consequências foram o resultado inevitável das políticas que antecederam este governo, ou foram opção deste atual governo?”. Isto é, a austeridade é a ressaca de longos anos de endividamento excessivo, de políticas económicas centradas em investimentos públicos pouco produtivos e pouco competitivos na economia global, ou foi uma opção ideológica livremente tomada pelo governo? Esta questão tem a ver com o acerto e o mérito das opções tomadas e acarreta implicações sobre a recetividade dos eleitores às diferentes opções políticas que os partidos irão apresentar para o futuro dos portugueses.

A segunda questão é deriva da primeira. “Se a austeridade foi uma consequência inevitável, o processo foi bem gerido?”. Isto é, havia opção de fazer de outra forma menos dolorosa e nociva em termos sociais? Esta questão tem a ver com a competência. “Estas pessoas são capazes de gerir bem, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, ou falharam no seu desempenho?”

A terceira questão é se “um governo que geriu um processo de crise, bem ou mal, tem a energia, o ânimo e a inovação para conduzir o país para um novo ciclo, de confiança, de aspiração, de ambição e crescimento”. Isto é, terá o partido no poder na fase de austeridade ficado com a sua identidade associada à crise, ou é capaz de ser visto como projetando um futuro inovador, que mobilize? Esta questão tem uma dimensão prévia, a da perceção de segurança e de risco relativamente ao futuro. “Com políticas diferentes, podemos resvalar para uma situação idêntica à que acabámos de passar?” Esta terceira questão tem a ver com a imagem de fiabilidade. “A quem vou confiar o meu futuro?” E aqui vai dominar o medo ou a aspiração.

Creio que é sobre estas três questões que os partidos políticos se devem focar, desde já, dando maior enfoque à terceira questão.

Fazer Opções

Por outro lado, os eleitores devem tomar consciência de que não podem ter uma coisa e o seu contrário. Terão de fazer escolhas, que mais cedo ou mais tarde, terão consequências, como já viram recentemente. Priorizar investimento ou custos sociais. Sustentabilidade económica ou dependência externa. Equilíbrio financeiro ou perda de riqueza para os estrangeiros, por via de custo da dívida e de privatizações. Reforma do Estado ou impostos. Entre outras.

O exercício da liberdade é fazer escolhas e assumir as suas responsabilidades, sem passar culpas a fatores externos. Num mundo com elevado nível de risco, com o país numa situação fragilizada, exige-se rigor e verdade dos partidos políticos e maturidade dos eleitores.

(1) Segundo o relatório sobre os Riscos Globais do Fórum Económico Mundial, o ano de 2015 será um ano de elevados riscos, sendo muitos deles riscos globais interligados entre si e de impactos sistémicos. Estamos pois mais à mercê de sistemas que nos ultrapassam do que no passado, e que podem influenciar as decisões dos eleitores.

 


CMO-PLCarlos Miguel Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em 8 países, África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, Estados Unidos da América, Espanha, Moçambique e Portugal. Assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informações aqui.