Os Valores Fundamentais da Sociedade: Liberdade e Segurança – Carlos Oliveira

Os Valores Fundamentais da Sociedade: Liberdade e Segurança – Carlos Oliveira

Se não houver uma mudança na postura dos líderes europeus, a onda de repúdio político e popular ao atentado de radicais islâmicos ao jornal satírico Charlie Hebdo será apenas um folclore sem consequência.

Os líderes europeus têm de ter a coragem de atuar com convicção e sem tibiezas contra os extremistas e os radicais (ou simplesmente criminosos, sob uma capa religiosa), se quiserem preservar a estabilidade e o modo de vida da sociedade europeia e se quiserem prosseguir com a política do multiculturalismo. O politicamente correto, as hesitações e a fraqueza, a incapacidade de criar novos modelos de governação, que conjuguem liberdade e segurança, irão redundar no crescimento dos radicalismos e condicionar o equilíbrio social e político do projeto europeu.

A Europa ganha em apostar e aprofundar uma política de multiculturalismo e em receber pessoas de outros continentes, culturas e religiões. Deve fazê-lo e ser menos etnocêntrica. No entanto, tem de proteger, sem tibiezas, os valores fundamentais da sociedade democrática: a liberdade e a segurança.

A liberdade individual de escolha e de expressão é a base nuclear da vida democrática. Não tenho o mesmo gosto e não concordo com as pessoas que trabalhavam no Charlie Hebdo. A intervenção social não precisa de ser ofensiva. Pela distribuição da votação política europeia, estou acompanhado pela maioria da população da Europa nesta não adesão à linha editorial do Charlie Hebdo, que considero excessiva, para ser brando na qualificação. Mas esse é precisamente o valor da liberdade democrática. Todos têm garantido um espaço de expressão livre na sociedade.

A segurança é o outro lado da moeda da liberdade. Uma sociedade condicionada pelo medo não é livre. A liberdade não existe sem a segurança. É errado considerar o aumento das medidas de segurança e o crescente tratamento da informação dos cidadãos pelos Estados, como uma limitação das liberdades individuais. Muitos dos que hoje mais ferozmente condenam os atentados ao Charlie Hebdo, são os que mais lutam contra as medidas que podem proteger melhor os cidadãos e a liberdade democrática.

É errado ser fraco com aqueles que ameaçam o modo de vida de uma sociedade. Karl Popper, talvez o mais influente filósofo europeu do século XX, salientou que ”Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes senão corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância” e, mais incisivamente, “Não é possível discutir racionalmente com alguém que prefere matar-nos a ser convencido pelos nossos argumentos.”

Como demonstrou Churchill, a fraqueza só aumenta a ameaça real dos radicais. Neste caso, dos extremistas religiosos islamitas, ou simplesmente criminosos sob capa religiosa. No entanto, essa fraqueza irá também fomentar o crescimento de grupos xenófobos europeus com poder de voto e que poderão condicionar o projeto do multiculturalismo europeu.

No artigo anterior referimos precisamente que o mundo está a mudar, está cada vez mais complexo e imprevisível e que é preciso promover a inovação social e procurar novos modelos de governação. Ficar preso aos clichês e aos modelos do passado será insuficiente.

Independentemente do endereço das causas dessas situações e tensão social, é pois fundamental que os líderes europeus aumentem as medidas de segurança e promovam a conciliação de novos modelos de segurança com a existência de uma vida democrática e com garantias de privacidade e de liberdade individual.

 


CMO-PLCarlos Miguel Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em 8 países, África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, Estados Unidos da América, Espanha, Moçambique e Portugal. Assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informações aqui.