Desafios de Liderança para 2015: Global, Portugal, Angola e Lusófono – Carlos Oliveira

Desafios de Liderança para 2015: Global, Portugal, Angola e Lusófono – Carlos Oliveira

Em 2015, os líderes empresariais e sociais estarão sob grande pressão, devido a um contexto cada vez mais complexo e em transformação constante, e por vezes imprevisível.

No texto a seguir, exploram-se os principais desafios de liderança: Globais, em Portugal, em Angola e no Bloco Económico Lusófono, que podem ser lidos de forma isolada ou integrada.

Em resumo:

  • Os líderes globais devem promover novos modelos de governação que lhes permitam aumentar a sua credibilidade junto dos cidadãos a nível nacional e responder mais rapidamente e de forma integrada a desafios globais;
  • Os líderes sociais em Portugal devem combater o queixume e promover a confiança, a responsabilização e a mobilização de todos os cidadãos em prol de um futuro descomplexado e ambicioso;
  • Os líderes empresariais em Portugal devem focar-se na eficiência operacional e financeira, e em novas ofertas inovadoras focadas no mercado global;
  •  Os líderes em Angola devem tornar a baixa do preço do petróleo numa oportunidade de diversificação económica, salvaguardando os agentes económicos que promovem o crescimento sustentável; e
  • Os líderes do bloco económico lusófono devem ser visionários e corajosos numa abordagem conjunta de grande alcance se quiserem impactar a nível global.


 
1. Os Desafios de Liderança Globais: A Qualidade dos Líderes é Menor ou o Sistema é Mais Complexo?

86% dos participantes no inquérito do World Economic Forum Outlook sobre o Global Agenda 2015 consideram que existe uma “crise de liderança no mundo”.

A tendência popular tem sido para considerar que os líderes de hoje são fracos, em contraste com os líderes de há uns anos atrás. Esta leitura da situação encontra, como resposta aos desafios de liderança para 2015, a procura de líderes messiânicos, super-heróis, um bocado como no crescentemente influente mundo do multimédia, ou mesmo o apoio a líderes anti-sistema. Esta visão está baseada na tendência natural para a glorificação e mitificação dos líderes do passado (muitos dos quais não passariam ao mínimo escrutínio e exigência dos dias de hoje) e na falta de compreensão dos desafios de liderança da atualidade:

  • Os líderes estão cada vez mais bem preparados e mais capazes, mas o mundo está cada vez mais complexo e difícil para o exercício da liderança.
  •  A economia global está cada vez mais integrada, os desafios cada vez mais interdependentes e globais e fora do alcance de um só sistema e líder, mas os sistemas de governação dominantes continuam fragmentados, nacionalistas e regionais.
  • As mudanças são cada vez mais aceleradas, mas os sistemas existentes de decisão e de implementação são burocráticos, formais e lentos – nomeadamente a nível da União Europeia.
  • Existe cada vez mais gente educada, melhor informada e mais exigente, o que torna o nível de exigência superior ao passado.
  • As tecnologias de informação estão a impor mudanças profundas na forma de trabalhar, de consumir, de socializar e de viver, exigindo também organizações novas e diferentes, mas os sistemas políticos e empresariais ainda se estão a adaptar a essa nova realidade.


Neste contexto, os principais desafios de liderança dos líderes mundiais em 2015 são:

  • Inovar e transformar sistemas sociais e de governação, evitando o nacionalismo, o populismo e o protecionismo, promovendo: i) a cooperação entre o Estado, as empresas, a academia e a sociedade civil na governação local, e ii) a cooperação e integração multilateral na governação global;
  • Promover a confiança nos cidadãos e agentes económicos, colocando a tónica na transparência, na comunicação, na ética, no diálogo e na conciliação da pluralidade de interesses sociais;
  • Questionar e transformar o modelo económico, de forma a melhor controlar a especulação financeira global, reduzir as desigualdades crescentes e reduzir o desemprego, aproveitando criativamente os avanços na ciência e na tecnologia;
  • Definir soluções práticas e obter resultados visíveis através de ambientes colaborativos, equipas motivadas e trabalho em interdependência, e da antecipação e reação rápida a novos eventos;
  • Construir dinâmicas de otimismo realista, sendo corajoso a enfrentar os lobbies e a demagogia, e agregando boas vontades.


 
2. Os Desafios de Liderança em Portugal: Coragem e Frontalidade Contra a Demagogia

Antes de perspetivar 2015, é importante relembrar onde estava Portugal a 1 de Janeiro de 2014. Os profetas da desgraça, amplamente suportados por uma comunicação social financeiramente debilitada e desesperada por sobreviver à custa do prolongamento do clima de crise no país, estavam na mó de cima. O colapso social, económico e político seria inevitável. A económica iria claudicar. A meta do défice seria impossível de atingir. A Troika iria continuar. Eleições antecipadas eram inevitáveis. Estavam a olhar para trás e não para a frente.

A realidade foi muito diferente. Em vez de entrar na dita inevitável espiral recessiva, a economia cresceu acima da média europeia, as exportações continuaram a crescer, o consumo cresceu, a venda de veículos cresceu 35%, a poupança das famílias cresceu, entre muitos outros indicadores económicos. A meta do défice foi superada. A Troika está fora do país, sem programa cautelar. Os juros da dívida pública estão em mínimos históricos. A justiça teve coragem de afrontar poderes instituídos no governo, na oposição e no mundo financeiro. A má governação de um grande grupo empresarial e financeiro (GES/BES) não foi apadrinhada pelo poder político e não foi assumida diretamente pelos contribuintes. Os indicadores sociais começaram a inverter a tendência negativa resultante das medidas impostas pela Troika, com proeminência para o crescimento do emprego e da natalidade.

2014 deve servir de lição para 2015.

A nível social, apesar dos imensos riscos existentes, são precisos:

  • Líderes que apostem corajosamente numa perspetiva de confiança e de crescimento, e na estabilidade necessária à renovação e modernização incremental dos modelos económicos, sociais e políticos, aproveitando os avanços da ciência e da tecnologia.
  • Inovadores e empreendedores sociais que tenham um discurso de mobilização e de responsabilização de todos os agentes sociais e dos cidadãos no seu próprio destino. Culpabilizar as elites é um desporto viciante e o negócio de alguns, mas que desresponsabiliza e desmobiliza os cidadãos. Em ano de eleições, é preciso combater a demagogia, o nacionalismo e os populismos que deixam os cidadãos mais pobres.


A nível empresarial, são precisos líderes que saibam:

  • Trabalhar em múltiplas frentes internacionais e culturais, aprofundando a continuação da internacionalização num mundo cada vez mais instável e imprevisível;
  • Melhorar a performance operacional e financeira, no âmbito de uma retoma interna lenta;
  • Promover a inovação e evolução da sua oferta, eventualmente apoiados pela entrada dos primeiros fundos comunitários;
  • Construir coligações externas da sua empresa, trabalhando em modelos colaborativos.


 
3. Os Desafios de Liderança em Angola: Transformar Adversidade em Oportunidade

A redução do preço de petróleo vai ter um impacto negativo no desenvolvimento económico e social de Angola, dado ser a fonte principal de receitas da economia e de divisas internacionais. As empresas portuguesas que operam em Angola vão ser severamente afetadas também.

No entanto, este será um impacto de curto prazo. Angola é e continuará a ser um país de enorme futuro por vários motivos. Os angolanos construíram uma sabedoria pragmática durante o longo período de guerra pós-independência. Angola tem um posicionamento político e cultural diferente dos outros países africanos, mantendo relações abertas com um grande número de países em todos os continentes, o que lhe dá uma relevância internacional acrescida. O preço do petróleo é cíclico e voltará a subir um dia destes, voltando a proporcionar enormes receitas que proporcionarão uma nova ronda de investimento e crescimento.

Este contexto exige que os líderes angolanos transformem esta situação numa oportunidade para fazerem uma melhor seleção e priorização dos investimentos a realizar e para acelerarem a diversificação da sua economia. A alternativa mais fácil de deixar de pagar a fornecedores irá ter um impacto negativo no crescimento económico, devido à consequente redução em cadeia da capacidade dos agentes económicos e eventual dano na confiança futura dos investidores.


4. Os Desafios de Liderança no Bloco Económico Lusófono: Ser Visionário e Corajoso

A fragmentação geoestratégica mundial, os grandes desafios de escala global, as crescentes transformações na forma de produzir, consumir e viver trazidas pelo avanço tecnológico, entre outros fatores, abrem espaço para a afirmação de um Bloco Económico Lusófono, com benefícios para os países integrantes, conforme apresentado em artigos anteriores.

As condições históricas são favoráveis. No entanto, um Bloco Económico Lusófono forte a nível mundial não acontecerá por acaso, mas apenas se houver líderes com capacidade de visão e de tomar decisões realmente inovadoras e transformadoras, com impactos alargados e de longo alcance.

Neste contexto, o grande desafio para 2015 é que os atuais líderes lusófonos, sintonizados com as novas exigências e oportunidades de governação global, vejam para além do seu tempo, e deem passos arrojados em prol da realização de um bloco económico devidamente articulado, de significado e influência mundial.

 


CMO-PLCarlos Miguel Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em 8 países, África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, Estados Unidos da América, Espanha, Moçambique e Portugal. Assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informações aqui.