Jorge Jesus e a Irracionalidade da Liderança – Carlos Oliveira

Jorge Jesus e a Irracionalidade da Liderança – Carlos Oliveira

A mudança de Jorge Jesus de treinador do Benfica para treinador do Sporting, o seu histórico rival, foi surpreendente e não podia deixar de mexer com as emoções dos adeptos, dar conteúdo à comunicação social e animar os entusiastas. Afinal, é futebol. Mas não é só futebol, pois este, pela sua natureza, mostra o íntimo das sociedades e das lideranças.

O folhetim das reações extremadas a esta mudança, de vários lados e para além do meramente lúdico, serve também para ilustrar a dose de irracionalidade que geralmente acompanha os processos de liderança e como as emoções acompanham todos os líderes. É mais fácil identificar este aspeto no futebol do que nas empresas ou na política. Mas existe em todas as outras situações, embora mais camuflado. A emoção é parte da liderança. Uma boa liderança deve ser avaliada pela correção da parte racional, pela adequação da parte emocional e pelo equilíbrio entre o emocional e o racional.

O Futebol Desarma e Denuncia-nos

O futebol, assim como certas situações na política e nas empresas, apela ao lado emocional e conduz ao enfraquecimento da parte racional das pessoas. A sensatez, a razoabilidade, a imparcialidade e o rigor dão mais facilmente lugar ao sentimento de pertença, à defesa da tribo, à descarga emocional, à pressão do grupo e à impunidade opinativa. As pessoas verbalizam opiniões com maior carga emocional, com muito menos cuidado e sem receio de penalizações. Baixam a guarda. Mostram mais do seu íntimo. Revelam-se.

O Reflexo na Política e nas Empresas

O mesmo se passa de alguma forma, mais mitigada, na política e nas empresas. Mas mais camuflado e num contexto mais complexo para se notar.

A política portuguesa está ainda muito ligada a sentimentos de pertença a um partido, como se de um clube se tratasse, do que à análise das suas políticas e lideranças. 

As empresas são mais afetadas pelas limitações psicológicas dos líderes, associadas à húbris, ao narcisismo e à paranoia (ver artigo), do que a erros de gestão. 

A Irracionalidade na Liderança

É evidente que o sucesso do Jorge Jesus no Sporting vai depender dos resultados, mas também dos equilíbrios psicológicos entre Presidente e Treinador e da relação afetiva com os sócios.

É evidente que o sucesso do Presidente do Benfica nas próximas épocas vai depender dos resultados, mas também da sua capacidade para ponderar as suas decisões de forma emocionalmente desligada do desempenho do Sporting.

O futebol, para além da componente lúdica, pode também ajudar-nos a reconhecer que nem as lideranças são maioritariamente racionais e sensatas,  nem os seguidores são seres que respondem apenas à razão e ao bom senso. O equilíbrio da emoção com a razão é fundamental para uma liderança eficaz. No final, um líder está dependente de dois elementos fundamentais: caráter e resultados.

 


CMO-PLCarlos Miguel Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em 8 países, África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, Estados Unidos da América, Espanha, Moçambique e Portugal. Assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informações aqui.