As bonecas e o Clube do Bolinha

As bonecas e o Clube do Bolinha

Há uma dúzia de anos, numa creche “mainstream” – nem particularmente progressista, nem conservadora –, assisti com espanto à intervenção da educadora numa disputa entre crianças com menos de dois anos: “João, não podes tirar a boneca à Maria. Além disso, tu és menino, não brincas com bonecas”.

Manuel Beja

Na minha geração, nascida nos anos 1970, e no meu meio, que sei ser enviesado, raramente encontro exemplos de machismo marialva e escancarado. Mas o sexismo persiste, de formas insidiosas: os papéis de género definem expetativas desequilibradas sobre a divisão de responsabilidades domésticas e familiares. A título de exemplo, ouvi recentemente a história de uma aluna do Instituto Superior Técnico que partilhava com desagrado o facto de ser esperado dela que preparasse as refeições e fizesse a lida da casa para os seus dois irmãos, também alunos na instituição.

As mulheres em Portugal dedicam quase mais duas horas por dia que os homens a trabalho não remunerado (isto é, doméstico e de cuidado) e quase as mesmas nove horas a trabalho remunerado. São hoje a maioria da população (52%) e dos novos estudantes universitários (55%). Mas ganham menos que os homens para trabalho igual, para todos os níveis de habilitações. São (ainda?) a minoria (ínfima, 7%) dos presidentes de câmara ou dos membros dos conselhos de administração das empresas do PSI-20 (14%). Estes são os Clubes do Bolinha, onde “menina não entra”.

Mas o exercício do poder no masculino é (tendencialmente) um jogo competitivo, de soma nula, no qual ganham os alfas. Em que é importante manter uma imagem de superioridade e ganhar a todo o custo. Em que contrapor é preferível a co-construir. É um exercício que sobrevaloriza as motivações extrínsecas em detrimento das intrínsecas. Não é uma inevitabilidade que as organizações funcionem assim. E ainda bem que não é, pois este conjunto de comportamentos não traz felicidade, nem faz brotar o potencial que todos têm.

A maioria das mulheres de sucesso que conheço foram exímias a dominar este mundo, e ganharam neste jogo ditado pelas regras deles. Outras – e alguns homens, é certo – contribuem todos os dias para mudar estas dinâmicas dentro das empresas.

Acredito que o talento está igualmente distribuído entre mulheres e homens. Por isso, uma organização na qual há um desequilíbrio muito grande entre os dois grupos, em todos ou em alguns níveis de responsabilidade, está a desperdiçar talento. Isso é consequência de crenças profundas e pode ser mudado com paciência e consciência, intervindo na forma como se seleciona, desenvolve e promove talento.

Criámos uma sociedade na qual as mulheres estão a trocar o exclusivo de brincar com bonecas na meninice pelo acesso a muitos Clubes do Bolinha, onde o poder se exerce e o futuro se molda. E é um mau negócio, para elas e para eles.

19-06-2017


Manuel Beja Small

Manuel Beja é head of people & organization na Novabase. As suas áreas de eleição são a liderança e a mudança cultural.
Trocou o sonho de infância de ser arquiteto pela Matemática Aplicada. Completou o MBA no INSEAD entre Singapura e França, concentrando as suas disciplinas preferenciais em “soft issues”, e mais recentemente o mestrado executivo em Gestão Estratégica de RH, na SDA Bocconi, em Milão. Este ano regressou ao INSEAD para frequentar o mestrado executivo em Consultoria e Coaching para a Mudança, para melhor se conhecer e trabalhar em equipas que gerem mudança e influenciam culturas organizacionais.
Na juventude viveu nos Países Baixos, em dois anos intensos, como estudante de intercâmbio e, mais tarde, de ERASMUS. Após o MBA, e durante três anos, liderou a Novabase Brasil, em São Paulo.
É apaixonado por bem receber, culinária e vinho, não-ficção e poesia, e música clássica. Gosta de regressar às cidades por onde passou para reencontrar amigos.