Era Trump: Tecnologia em rota de colisão com a política

Era Trump: Tecnologia em rota de colisão com a política

Numa altura em que São Francisco e outras áreas urbanas dos EUA desfrutam os lucros das tecnológicas e da próspera cultura empresarial, as regiões industriais e rurais debatem-se com dificuldades. A tecnologia é o novo inimigo da classe trabalhadora americana. E não é exatamente amiga de Trump.

Susana Camp, Jonathan Littman 

Na noite antes da tomada de posse do atual presidente dos EUA, um dos casais poderosos da área da tecnologia falou perante uma audiência de pares em São Francisco sobre o futuro do Governo digital na era Trump. Jennifer Pahlka, ex-Chief Technology Officer na Casa Branca, e o seu marido, Tim O’Reilly, fundador e CEO do império O’Reilly Media, participaram no fórum “What’s Now” para responder à pergunta na mente de muitos “techies”: como devem as tecnológicas que têm em conta as questões cívicas abordar e reinvenção do Governo na nova Administração?

Jennifer Pahlka, que fundou a Code for America (plataforma que trabalha em rede para disseminar a tecnologia junto dos Governos locais e assim “criar comunidades saudáveis, prósperas e seguras”), tem uma resposta: Muitas áreas do Estado são apolíticas. Trata-se apenas da prestação de serviços. “Somos uma organização sem fins lucrativos, e somos contactados por uma grande variedade de pessoas que querem ter uma posição neste assunto, incluindo muitos membros republicanos do Congresso.”  

Tendo em conta o seu papel recente como CTO de Serviços Digitais dos EUA e o cargo de CEO da Code for America, Jennifer Pahlka considera que muitas das melhorias positivas introduzidas no Governo – tecnologias de código aberto (open source), prototipagem rápida e melhor acesso a dados públicos via interfaces digitais superiores – vão prosseguir com Donald Trump. “Não está claro. [O processo] pode até ser acelerado”, referiu. E “como não gostar do que foi feito? É melhor para o público americano e é mais barato”, acrescentou, promovendo a ideologia “business-as-usual”.

Enquanto o moderador do debate, Peter Leyden (fundador e CEO da start up de media Reinvent), incitava os convidados a falarem sobre a ansiedade palpável em torno da mudança de regime federal, Pahlka e O’Reilly sublinhavam o seu desejo de distinguir “política” de “Governo”, e de separar “governação” de “tecnologia”.  

O elefante na sala
Os estranhamente ausentes do evento acabaram por ser o elefante na sala – os grandes players tecnológicos americanos. E sobre os quais Trump fez manchetes, atacando os frequentemente surdos e autocentrados interesses. Durante a campanha para as eleições presidenciais os gigantes de Silicon Valley falharam em termos de empatia e inteligência (humana ou artificial). O Facebook e o Google forneceram de forma ingénua um fórum online disruptivo e lucrativo (anúncios online) para criar e divulgar notícias falsas, enquanto o Twitter se revelou menos um meio de liberdade e mais um amplificador de ódio, preconceito e mentira.  

E depois há a divisão digital. Numa altura em que São Francisco e outras áreas urbanas desfrutam do boom proveniente dos lucros das tecnológicas e da próspera cultura empresarial que favorece tecnologias disruptivas, as antigas regiões industriais e rurais debatem-se com dificuldades. A tecnologia é o novo inimigo da classe trabalhadora americana e não é exatamente amiga de Trump. No final de 2016 a própria Jennifer Pahlka esteva entre as 145 pessoas proeminentes do setor tecnológico que assinaram uma carta aberta para o então candidato Donald Trump em sinal de protesto pelas declarações anti inovação, pelos planos de bloquear a imigração e de “fechar” partes da internet, como chegou a proferir num discurso em 2015. 

A ágil influência das tecnológicas no Governo
Não obstante, Jennifer Pahlka falou da grande oportunidade para introduzir metodologias ágeis de desenvolvimento de produto e de iteração rápida nos sites e sistemas federais e estaduais. “Estamos a construir produtos iterativos, centrados no utilizador e orientados para dados (data-driven)”, explicou, argumentando que é possível permanecer relativamente apolítico ao construir tais sistemas, focando-se apenas em fornecer aos utentes os melhores serviços através das melhores práticas. “Os regulamentos podem ser testados no mundo real antes de validados”, acrescentou. “Esta é uma forma profunda de perceber que não se trata apenas de tecnologia, mas de lei, de governar, de supervisão e de regulamentação. Não se pode governar se não se tiver grandes profissionais de tecnologia ao lado”.

Jen Pahlka e Tim O’Reilly mencionaram histórias de sucesso que ilustram como equipas pequenas e ágeis trabalharam contra a cultura predominante de burocracia federal, caracterizada por protocolos obstrutivos e regras bizantinas para os fornecedores. As equipas mais pequenas, destacou o casal, não só podem criar aplicações altamente funcionais como até podem criar novas formas de governar. Por exemplo, o lançamento inicial do site Healthcare.gov em 2013 foi difícil – foram investidos centenas de milhões de dólares num enorme esforço colaborativo entre as várias agências federais, mas na altura do lançamento o site foi abaixo. Pahlka e O’Reilly descreveram o “esforço de salvamento” implementado por uma pequena equipa de apenas 13 “heroicos” codificadores e gestores de projeto que conseguiram colocar o site de volta online.

Há biliões de dólares disponíveis para as “techies”. Os participantes no evento afirmaram que o Governo federal tem um enorme orçamento de TI que abrange não só o desenvolvimento de software mas também de procurement/compras (laptops, planos de dados e investimentos em hardware e software). A governação local gastou 88 biliões de dólares (quase 82 mil milhões de euros) em TI em 2016 e encaminha-se para gastar 90 biliões (83 mil milhões de euros) em 2017. Valores que envergonham os 58 biliões de dólares (cerca de 54 mil milhões de euros) investidos em capital de risco em 2015. Os membros da audiência que têm experiência enquanto fornecedores do Estado americano partilharam histórias e anedotas sobre como o dinheiro flui com facilidade.

Jennifer Pahlka é otimista, referindo que “uma das coisas que me faz ter tanta esperança em relação a onde nos encontramos é termos construído um tecido, uma rede de pessoas que têm competências digitais de tecnologia de consumo e que construíram relações autênticas, cuidadas e significativas com as pessoas que têm vindo a fazer o trabalho ao longo do tempo”, tendo abraçado o valor do serviço público. O seu trabalho nos Serviços Digitais dos EUA ensinou-lhe que “não se trata de construir um site, trata-se de construir um serviço”. No que lhe diz respeito, Jennifer Pahlka declara que se envolveu no Governo não pelo dinheiro, mas para retribuir. Pahlka escreveu no final de 2016 que trabalhou como voluntária na equipa da campanha de Clinton e na equipa de transição, mas que “tornou muito claro que não iria aceitar um emprego na Administração Clinton”.

No dia após a eleição de Donald Trump, Pahlka afirmou num blog que “se não se gosta do resultado da eleição (ou se se gosta), esta é uma boa altura para se lembrar que a política não é Governo, e que governar não é um problema dos outros. É nosso”. E adianta que, até agora, sentiu apoio apenas dos seus empregadores em Washington. “De tal forma que estive envolvida em conversas sobre o futuro deste trabalho a nível federal sob Trump”, disse Pahlka aos participantes no debate. “Tanto os republicanos estabelecidos como os conselheiros mais próximos do Trump pensam que isto é incrível... porque é”.

Mas até que ponto? Apesar do mantra de Pahlka, que “política não é Governo”, a história mostra que, quando se trata do Governo moderno, a política e a tecnologia raramente andam separadas. Na verdade, a tecnologia pode transformar as promessas políticas numa dura realidade. O novo presidente dos EUA está a avançar com a construção de um muro para barrar a entrada de mexicanos em solo americano, e a criação de sofisticadas ferramentas e bases de dados digitais para encontrar e deportar milhões de homens, mulheres e crianças do México e do Médio Oriente. 

Pode realmente separar-se a tecnologia da política?
Já não é apenas conversa. O slogan “America First” está a encrudescer. No dia seguinte ao discurso de Jennifer Pahlka, o site WhiteHouse.gov foi “limpo” de todas as referências a mudanças climáticas, direitos civis e iniciativas LGBT – questões que foram “desaparecidas”, como alguns escreveram. O novo rosto digital da administração Trump apresentava antes declarações estridentes de apoio à polícia (“A perigosa atmosfera anti polícia na América é errada”) e exigia “tornar os nossos militares fortes de novo”. Trump também assinou a “revogação imediata” do Ato de Saúde Acessível, e acelerou mudanças draconianas no healthcare.gov.

E isto foi apenas na primeira semana da nova Administração, mas os factos sugerem que pode ser ingénuo esperar que a tecnologia possa ser separada da política. No dia da tomada de posse de Trump os manifestantes reagiram com fúria ao que viram como sendo um apaziguamento rápido por parte das tecnológicas junto do novo ocupante da Casa Branca. Em São Francisco ativistas formaram cordões humanos à frente da sede da Uber para protestar contra a colaboração da empresa com a equipa de transição de Trump. Os manifestantes pararam ainda um comboio que se dirigia para Silicon Valley, contra as companhias de tecnologia que acertaram o passo com Trump. No dia seguinte, a Marcha das Mulheres em Washington atraiu o triplo das pessoas que estiveram presentes na posse de Trump. Foi um dos maiores protestos na história dos EUA.

Nos próximos meses os líderes das tecnológicas, empreendedores e codificadores vão ter de decidir por si mesmos qual o papel que querem que a tecnologia desempenhe na era de Trump. Mas o povo na rua não demonstra nenhum do otimismo do casal Pahlka-O’Reilly.

01-02-2017

Nota: Tradução do artigo de Susanna Camp e Jonathan Littman, originalmente publicado no hub de inovação SmartUp.life, que reúne textos sobre empreendedorismo e inovação, incluindo um recente sobre Lisboa.