Tecnológicas de São Francisco juntam expertise para fins humanitários

Tecnológicas de São Francisco juntam expertise para fins humanitários

Alguns dos líderes dos grandes players da Bay Area estão a trabalhar em conjunto para debelar questões sociais locais como a dos sem abrigo. A ideia é escalar os esforços para passar a contribuição de local a global. 

Susana Camp, Jonathan Littman

A disrupção faz a cultura start up de São Francisco, nos EUA, mexer-se, renovando produtos ou serviços existentes com soluções tecnológicas radicalmente novas. Num evento recente, líderes humanitários e de tecnologia uniram esforços para anunciar um tipo diferente de start up: uma missão coletiva para levar o poder do empreendedorismo e da inovação aos milhões de pessoas afetadas pelas mudanças climáticas, fome e guerra.

Um dos oradores, Marc Benioff, chairman e CEO da Salesforce, declarou que “as pessoas que se sentem atraídas por esta cidade ficam inspiradas pela sua energia. Uma das coisas que todos nesta sala podem fazer é transmitir a ideia de que queremos realmente ajudar – com profunda compaixão – e fazer algo em concreto”.

O “Everyone a Humanitarian” (“Todos um Humanitário”) foi o primeiro de uma série de eventos e projetos programados para os próximos meses para o local ocupado pela Swissnex, um centro de tecnologia projetado para ligar o ecossistema de inovação da Suíça ao poderio tecnológico da Bay Area, e compartilhar a experiência da nação europeia em orquestrar grandes esforços humanitários. 

O evento teve um alcance global, com um painel liderado por Benioff, da Salesforce (possivelmente a principal empresa de tecnologia filantrópica de São Francisco); por Yves Daccord, diretor-geral do Comité Internacional da Cruz Vermelha; por Kevin Barenblat, diretor do acelerador de tecnologia sem fins lucrativos Fast Forward; e por Clemantine Wamariya, refugiada e defensora dos direitos humanos. A sessão foi moderada por Katherine Maher, diretora executiva da Wikimedia. O foco: alavancar a capacidade empresarial da Bay Area e o potencial para combater uma forma diferente de disrupção.

Yves Daccord afirmou perante a multidão que “as culturas, os lares e os mundos sofrem disrupção com a guerra, a pobreza, as mudanças climáticas”, frisando que a crise de refugiados sem precedentes e as disparidades económicas generalizadas evidenciam a necessidade de novos modelos. Os migrantes e outros que enfrentam “vulnerabilidades digitais” estão a começar a olhar para a agência internacional como um provedor de serviços, acrescentou Daccord, o que forçou a Cruz Vermelha a uma “adaptação radical” para manter cidadãos e refugiados ligados em hot spots como a Síria, a Somália, o Iémen e o Iraque, locais onde a energia e as infraestruturas digitais são uma necessidade fundamental. A Cruz Vermelha, a OMS – Organização Mundial de Saúde, o Banco Mundial, a UNICEF e outras entidades de maior vulto devem forjar parcerias técnicas com empresas e governos para criar e manter bases de dados e novas soluções de fintech móvel para as massas de pessoas em movimento

Benjamin Bollmann, head of science programs and university affairs na Swissnex, juntamente com Andrina Beuggert, mercator fellow in international affairs na Swissnex, destacaram vários exemplos proeminentes de esforços locais de filantropia. É o caso de Josette Melchor, da Gray Area Foundation for the Arts, que arrecadou meio milhão de dólares para as vítimas de um incêndio com uma rápida e eficaz campanha de crowdfunding; ou de Yasmin Green, diretora de pesquisa e desenvolvimento na Jigsaw (anterior Google Ideas), que está a aplicar algoritmos do Google para identificar milhares de potenciais recrutas do ISIS e a tentar dissuadi-los através de uma campanha de publicidade num vídeo anti recrutamento.

Os oradores e os membros da plateia comentaram a crise dos sem abrigo que assola a Bay Area. Em São Francisco os trabalhadores de tecnologia tropeçam em pessoas deslocadas que lutam com a dependência crónica, com problemas de saúde mental ou física, a pobreza a longo prazo ou a tragédia. “Pensem no outro de forma diferente”, encorajou Clemantine Wamariya, enfatizando a importância de nos colocarmos “na mente da pessoa. É onde está a resposta”.

Marc Benioff desafiou as companhias a fazerem mais. O modelo filantrópico da Salesforce, em que os clientes contribuem com 1% dos seus lucros para apoiar a integração da filantropia nos negócios, teve um impacto humanitário multiplicador. A empresa doou mais de 128 milhões de dólares (cerca de 123 milhões de euros), juntamente com o serviço comunitário e doações de produtos. Benioff e a mulher doaram cerca de um quarto de bilião para financiar hospitais infantis locais, e Benioff é um dos vários líderes empresariais proeminentes que colaboram no Project Homeless Connect, uma iniciativa do vice-governador da Califórnia, Gavin Newsom, que presta serviços aos sem abrigo em São Francisco.

O próximo evento da série Swissnex decorre a 28 de janeiro de 2017 – um festival de um dia, de aprendizagem imersiva sobre a ação humanitária. Os eventos futuros incluem temas como Casas e Abrigos, Saúde Digital, Diplomacia Humanitária, e Gestão de Informação em Cenários de Crise. Há uma enorme capacidade de inovação no setor tecnológico da Bay Area, e os oradores esperam inspirar empresários mais motivados a contribuírem para soluções de longo prazo para o sofrimento que nos rodeia. “Os lucros das empresas digitais precisam de reverter para a humanidade, não apenas para os investidores”, disse Yves Daccord.

Benioff terminou a sua intervenção com um apelo à empatia – e à ação. Combater em conjunto os problemas de São Francisco vai levar à escala necessária para a internacionalização. “Se criarmos uma cultura de indiferença e não conseguirmos resolver alguns dos problemas locais, então não seremos capazes de ajudar em termos do globo”, acrescentou o CEO da Salesforce. “Temos muito a fazer aqui mesmo, e temos de ser um exemplo de união. É um problema que é solúvel”.


22-12-2016

Nota: Tradução do artigo de Susanna CampJonathan Littman, originalmente publicado no hub de inovação SmartUp.life, que reúne textos sobre empreendedorismo e inovação, incluindo um recente sobre Lisboa.