Ponte dourada para a Europa: Web Summit Lisboa 2016

Ponte dourada para a Europa: Web Summit Lisboa 2016

O que é que a pequena Lisboa, uma cidade compacta com apenas meio milhão de pessoas, tem a oferecer às start ups que procuram explorar o mercado europeu? A lista é longa.

Jonathan Littman

Há uns dias estava eu com Nuno Mathias, cônsul-geral de Portugal em São Francisco (EUA), no clássico St. Francis Yacht Club, em frente à ponte Golden Gate, e vislumbrei o futuro. O diplomata, que se preparava para a Web Summit desta semana em Lisboa, partilhou a sua perspetiva sobre o boom tecnológico que está a moldar São Francisco, e sobre os esforços de Portugal para se tornar um player mundial no panorama start up, potenciados pelo seu papel enquanto atual cenário da maior conferência tecnológica da Europa.

Lisboa bateu Paris, Berlim, Amesterdão, Barcelona e Dublin pelo privilégio de acolher a prestigiada conferência nos próximos três a cinco anos, um grande avanço na estratégia arrojada de Portugal para competir pelo talento e o capital dos principais pólos de inovação da Europa. “A conferência ultrapassou Dublin”, disse Nuno Mathias, referindo-se ao anfitrião da Web Summit desde o seu início, em 2010. Lisboa teve a melhor oferta, prosseguiu o diplomata, em grande parte graças à infraestrutura avançada de tecnologia e à hospitalidade, que pode prontamente apoiar os cerca de 53 mil participantes esperados esta semana, quase o dobro da multidão do ano passado. “Tal como São Francisco é a Costa Oeste da Califórnia, Lisboa é a Costa Oeste da Europa”, afirmou.

Este slogan “Costa Oeste” não é apenas literal, mas metafórico, um tema sobre o qual Nuno Mathias tem uma perspetiva única. Após ter estado colocado em Washington e em Moçambique, foi para São Francisco em junho de 2012, altura em que a cena tecnológica da Bay Area estava a ganhar relevância. “Havia ainda esta consciência de Silicon Valley como o centro, mas a experiência mudou no espaço de dois anos”, declarou o diplomata. Em 2014 Nuno Mathias via e ouvia falar sobre o aumento exponencial do capital de risco e no papel de São Francisco como o centro para aceleradoras e incubadoras. “Os empreendedores mais jovens, mais disruptivos, estavam a fixar-se na cidade”. E não eram apenas start ups. “A Google, Facebook, todos eles tinham escritórios em São Francisco. A cidade inteira começou a agir como uma incubadora para os jovens cérebros”.

É esta migração transformacional de tecnologia e de talento, outrora localizada na franja suburbana de Silicon Valley e agora atraída pelas luzes brilhantes e o destino cosmopolita de São Francisco que contribui para o otimismo de Nuno Mathias. Os esforços de Portugal para evoluir para um centro de tecnologia internacional alimentam uma corrida febril por talento global e capital de risco, uma competição em que é o “menos cotado”. Hoje, uma das principais cidades internacionais de start ups é a improvável Tel Aviv (população de 411 mil) repleta de know-how técnico da Universidade de Tel Aviv e das Forças de Defesa de Israel. Singapura, mediante esforços coordenados governamentais, rapidamente se tornou num íman global para a inovação no planeamento urbano. Na América do Sul, São Paulo e Santiago estão a fazer avanços, enquanto na Ásia a Coreia do Sul está a crescer; e Zhuhai, na província chinesa de Guangdong, registou recentemente o marco extraordinário de 2.822 start ups por cada 100 mil pessoas. Enquanto isso, as principais metrópoles tradicionais, Londres, Berlim e Paris, permanecem os principais centros europeus.

Portugal, tal como muitos hubs internacionais, beneficiaria com um financiamento governamental mais agressivo e uma redução das barreiras burocráticas. No entanto, o país tem uma série de novas aceleradoras e incubadoras, como a Beta-i, a Startup Lisboa e a Startup Braga. Histórias de start ups de sucesso incluem a Aptoide, a maior loja independente de apps para Android; a Codacy, produtora de ferramentas de revisão de linhas de código; a Feedzai, com software de prevenção de fraude em tempo real, alimentado por aprendizagem de máquina (learning machine); a Uniplaces, plataforma online de alojamento para estudantes universitários; e a Veniam, que está a introduzir Wi-Fi nas frotas de autocarros, táxis e camiões de lixo. Ao longo deste mês a NewCo, a empresa global de conferências imersivas de tecnologia, está a levar os participantes a start ups locais de Lisboa, do Porto e de outras três cidades portuguesas no seu Festival NewCo Portugal.

Então, o que a pequena Lisboa, uma cidade compacta com uma população de apenas meio milhão de pessoas, tem a oferecer às start ups que procuram explorar o mercado europeu? A lista é longa. Para começar, existe a língua: o português é falado por 260 milhões de pessoas em todo o mundo. Além disso, como explicou Nuno Mathias, existem fundamentos importantes e intangíveis. Os estudantes portugueses têm uma classificação surpreendentemente alta em ciências e tecnologia, a fluência em inglês é excelente, e os centros de start ups em Lisboa e outras grandes cidades estão a crescer rapidamente (nomeadamente no Porto e em Coimbra). O talento, o arrendamento, a comida e a diversão mais baratos fazem de Lisboa um negócio europeu atraente para os empresários, uma verdade confirmada no anual Lisbon Challenge, que atrai cerca de metade das equipas de start ups do estrangeiro.

Lisboa é semelhante a São Francisco, desde o clima agradável e cultura jovem à sua recetividade a apoiar a inovação e o empreendedorismo. “Há um aspeto vibrante em Lisboa”, referiu Nuno Mathias. “Os codificadores talentosos (muitas vezes da Europa Oriental) são atraídos pelo sol e pela qualidade de vida para fundarem as empresas lá”. Os materiais promocionais mencionam não apenas a quantidade de talento em Portugal, os mentores, o capital de risco, business angels e as universidades, mas também o “espírito aventureiro”.

Portugal diz “sim” ao empreendedorismo, enquanto o recente voto no Brexit no Reino Unido sinalizou um retrocesso e protecionismo hostil à imigração e ao comércio. O diplomata acrescentou que a antiga glória marítima de Portugal significa que, com mais de 500 anos a interagir com pessoas de diferentes culturas, “ao longo dos séculos temos abraçado a diversidade”. 

O destaque da Web Summit nos media leva a comparações, não apenas com São Francisco, mas também com Silicon Beach, em Los Angeles. “Pode sair da secretária à hora de almoço e estar na praia em 15 minutos – o que está mais próximo de LA que da levemente “nerdy” São Francisco”, declarou recentemente ao The Guardian o jovem empreendedor Ridhi Kantelal. Enquanto as rendas astronómicas de Londres, o alto custo de vida e a diminuição da vida noturna afastam a nova e mais jovem geração tecnológica, esta sente-se mais atraída pela famosa – e acessível – cozinha, vinhos e clubes noturnos de Lisboa. As empresas globais de tecnologia que procuram uma nova sede física devem considerar isto: a renda dos escritórios em Lisboa é apenas cerca de um quarto dos preços praticados em São Francisco ou em Londres.

A recetividade a novas ideias, estilos de vida alternativos e formas criativas de trabalhar são outro ponto favorável. Portugal conseguiu manter-se afastado da politiquice e de conflitos: permaneceu neutro na Segunda Guerra Mundial (apesar de brigadas voluntárias terem ajudado os Aliados). O país é um líder mundial em energia renovável, sobretudo a eólica. E está orgulhosamente entre os “primeiros a legalizar o casamento homossexual”, sublinhou Nuno Mathias, que assinalou outras semelhanças com São Francisco, como a ponte Golden Gate (a Ponte 25 de Abril foi construída pela mesma empresa), as ruas inclinadas, os elétricos, uma atitude de “poder fazer” e uma ausência geral de tradições entrincheiradas frequentemente comuns nas grandes nações europeias.

Nesta semana a Web Summit conta com oradores de grande relevância que vão desde a reformada estrela do futebol brasileiro que agora é investidor, o Ronaldinho; passando pelo diretor-geral da Organização Mundial do Comércio; Mike Schroepfer, CTO do Facebook; John Chambers, presidente-executivo da Cisco; ou até Sean Rad, cofundador e CEO do Tinder.

Mas se as faíscas da Web Summit vão originar fogo ou não depende de se o país consegue aproveitar o impulso inicial inspirado pela ascensão de Lisboa. Num evento recente pré-Web Summit em São Francisco, vários oradores explicaram como Portugal, com apenas 10 milhões de habitantes, pode proporcionar uma plataforma de lançamento ideal para a Europa. É mais que o bom tempo e todas as outras condições económicas, de educação e políticas favoráveis ​​que aceleraram a ascensão de São Francisco. Pedro Santos Vieira, fundador e presidente da West to West, uma organização americana sem fins lucrativos que serve de ligação entre Portugal e Silcon Valley, elucidou que o seu país se tornou perfeito para protótipos rápidos e de alta tecnologia. A Veniam, por exemplo, começou a testar a rede Wi-Fi na cidade do Porto para 350 mil utilizadores únicos (em autocarros, táxis e camiões de lixo) antes do lançamento em Singapura. A empresa atraiu financiamento da Verizon, da Cisco e de outras com planos para expandir as suas redes nos EUA e noutros países. “É fácil conseguir clientes para os testes”, afirmou Vieira. “Pode fazer rapidamente um teste-piloto e ver se uma ideia vai escalar”. O que pode ser outra forma de dizer que Portugal está pronto para se tornar numa ponte para o futuro.

08-11-2016

Nota: Tradução do artigo de Jonathan Littman originalmente publicado no hub de inovação SmartUp.life, que reúne textos sobre empreendedorismo e inovação, incluindo um recente sobre Lisboa.


JonathanLittman2

Jonathan Littman, professor de inovação e empreendedorismo na Universidade de São Francisco, é autor bestseller (contando, entre as suas obras, com “As 10 Faces da Inovação”, escrita em coautoria com Tom Kelly, CEO da IDEO). O também fundador do hub de inovação SmartUp.life e da Snowball Narratives promove sessões e workshops interativos sobre, entre outros conceitos, inovação, empreendedorismo e design thinking.